Mais uma vez venho a Goiânia pra prestigiar o Festival
Bananada, segundo maior da cidade e juntamente com o Goiânia Noise, Vaca
Amarela e Release Alternativo, integrado a Associação de Festivais
Independentes – Abrafin. O local, perfeito para a proposta: Martin Cererê, dois
teatros isolados acusticamente inseridos em uma circunferência maior com praça
de alimentação, mesas, cadeiras, espaço para venda de drinks e uma diversidade
gigante de exposição de produtos: camisetas, CDs, bottons, bolsas, tennis
estilizados, alargadores, brincos, chaveiros, vinis, toy arte, e por aí vai. A
dinâmica de apresentações nos dois teatros é a característica marcante do
festival, acontece assim: enquanto as portas de um dos teatros estão abertas
com a banda se apresentando, o outro está passando o som da atração seguinte.
Quando finaliza o show as portas do outro teatro abrem-se e começa com a
próxima atração, essa por sua vez se fecha para passagem de som da próxima
banda.
Valorização da cena local a partir da maior parte da
programação ser composta por bandas regionais é o perfil do Bananada. Das 42
bandas que passaram pelos palcos durante as três noites, mais da metade é do
estado.
Na
sexta, as bandas que já haviam se apresentado na edição do
ano passado, como Gloom, Shakemakers e Diego de Moraes e o Sindicato
provaram por
que mais uma vez fizeram parte do line up. A primeira, apesar de cordas
desafinadas no começo, mas corrigidas durante a apresentação, agitaram
ao ritmo
carimbo os poucos que haviam chegado pra curtir as outras dez bandas
que ainda
estavam por vir. Em seguida, Super Stereo Surf vinda do Distrito
Federal
garantiu o estilo Surf Music (como o nome da banda já sugere) presente
no
festival. Depois disso, Arco Duo de São Paulo e Dead Lover’s Twisted
Heart de
Minas Gerais fizeram o som enquanto os espaços dos teatros já estavam
cheios.
Então sobe ao palco apenas um homem, é o Perito Moreno. Esse homem é
ninguém menos que Beto Cupertino, vocalista da recém extinta e recém
voltada Violins. Começou ele e um
teclado, pop que lembra U2, depois ele e o violão, som muito bem feito
e muito
bem cantado. Em seguida Shakemarkers: Rockabilly divertido. Como havia
dito, tinha
assistido o show deles na edição do ano passado, e que avanço! Nem
parecia a
mesma banda. Apesar do estilo musical não me agradar, o som estava
redondo. A
noite seguiu com The Backbiters de Goiânia e Filomedusa de Rio Branco
no Acre,
que por sinal roubou toda atenção, foi a banda da noite.
Enquanto
isso, no canto ao lado da enorme mesa de som de frente
ao palco, uma mesa de som de 8 canais e um notebook garantia o acesso
ao som
que rolava nos dois teatros para o mundo todo através da internet. Era
a Web Rádio Abrafin transmitindo o Festival Bananada e fazendo entrevistas com convidados.
Barfly
Caminhando para o fim da primeira noite, banda Rubinho
Jacobina do Rio de Janeiro, pop bem humorado, apesar do pecado cometido na
escolha do figurino: moletom, bermuda e tennis, camisa florida, calça e sapatos
sociais, seria proposital? Talvez, não ficou nada harmônico. Em seguida, as
conterrâneas Barfly e Diego de Moraes e o Sindicato. Diego de Moraes, ultima
atração da noite, foi apresentado por um dos produtores do festival, Fabrício
Nobre da Monstro. Também já tinha assistido ano passado e foram a revelação da
edição anterior, aquela que surpreende. Agora, já esperava que o show fosse
bom, e foi.
No dia seguinte, mal começava escurecer e já tinha
movimentação pelo M. Cererê, todas as estruturas preparadas pra segunda noite que
estava por vir. Pontualmente no horário Girllie Hell e TSA ambas goianas, sendo a primeira formada por garotas.
Mostraram o som a lá Kiss Style, do tipo “somos meninas e queremos fazer rock”.
Em seguida, tinha pessoas esperando a porta abrir para presenciar o som da Sangue
Seco, também local mas que tem público formado, consome as músicas, conhece as
letras e curtem o show inteiro. Clima agradabilíssimo.
Technicolor
Na seqüencia Hey Hey Hey de Porto Velho, Technicolor e
Nancy, as três com mulheres na formação. A primeira baixista, a segunda
vocalista e flautista e a terceira vocalista. Um combo de mulheradas. Depois disso, Zero Doze de Rio Grande do Sul e
Multiplex do Distrito Federal, que apresentou glam rock nada original, com
certeza o que viria pela frente (como o Johnny Suxxx, por exemplo) seria mais
autêntico.
Nancy
Eis que o público enfurecido lota o espaço da próxima atração,
todos esperavam pelo garage rock da banda mais conhecida na cidade, MQN. Ate então
não tinha visto a galera tão enlouquecida, já que a fama é conhecida. Gritaria,
gente subindo na grade de proteção, roda punk e muita, muita cerveja voando
para todos os lados, principalmente vinda do palco. No final, todos molhados de
cerva. É show de rock! Depois, Lenzi Brothers de Santa Catarina. Influências bem perceptíveis de
Cachorro Grande.
MQN
Enquanto isso, lá fora era o ápice da movimentação de pessoas no
Martin Cererê. Muita gente circulando, consumindo produtos, demanda nas bancas
de alimentação (cachorro quente, espetinho e yakisoba), drinks dos mais coloridos
e sabores mais diferentes, pessoas de bandas diversas se reencontrando e muita
gente se conhecendo.
Já no palco, “quem é aquele senhor japonês de
cabelos compridos?”Damo Suzuki, ex-vocalista da lendária banda alemã Can. Ele
não tem uma banda, mas sim uma rede de pessoas que se disponibilizam a tocar
com ele pela sua turnê. O mais bacana de tudo é que por mais que ele cante, as
canções não tem letras! Assim, não tem como a mesma música ser repetida, cada
show é único.
Damo Suzuki
Em seguida, um dos shows mais bacanas dessa 11ª
edição do Bananada, Johnny Suxxx and The Fucking Boys de Goiânia. Energético e
muito mais maduros. Os erros de tempo do baixista e as cordas desafinadas da
guitarra que geralmente ouvia nos shows foram substituídos por backing vocal feminino,
mas a presença de palco irreverente do João Lucas, sempre a mesma. O show teve
direito a participações especiais, como a de Carol Freitas que tinha quebrado tudo
no dia anterior com Filomedusa, e Victor Cadillac, produtor na cidade e
parceiro do João.
Por
fim a banda mais esperada da noite também foi anunciada
por Fabrício Nobre, Black Drawing Chalks, uma das mais aclamadas em
Goiânia. Voltaram
recentemente duma turnê no exterior e foram convidados pra participar
da Canadian Music Week, no Canadá. Todo mundo ali esguelava as letras,
pulava
pela grade, levantava os músicos, o caos! Assim foi fechada a segunda
noite do
Festival Bananada.
Black Drawing Chalks
O domingo
foi bem peculiar. Como era de se esperar, foi o dia menos cheio, a galera tinha
que trabalhar cedo na segunda, aquela história. Mas foi também o dia em que
imperaram estéticas diferentes ao goianíssimo rrrrock!.
Logo de cara, já começou com MC Dyscreto, rap de alto nível, com
ligação direta com o Hip Hop Fora do Eixo (se apresentou no Festival Consciência Hip Hop, organizado
pela Cufa Cuiabá). A base do cara é tão violenta que tivemos que pedir para
o técnico de PA (glorioso Adão) para tirar graves do sinal que vinha pra rádio
– já tinha tirado todo o grave na mesa própria da rádio e a coisa continuava
rachando.
A batida pesada dá o clima “street” que
afrontou o desacostumado público goiano, que esperava por riffs barulhentos pra
começar o evento. Ficou todo mundo na portinha do teatro, ninguém chegou na
frente do palco. Até que Dyscreto, sábio front man, fechou o show com um samba
e conseguiu trazer a galera mais pra perto. Foi uma pena ter pouca gente na
hora desse show, que foi um dos mais quentes do festival.
Enquanto rolava o som do Sattva, fiquei
passando o som do Boddah Diciro, pra
transmissão na rádio. A banda evoluiu consideravelmente em suas timbragens,
notável fruto do trabalho com Gustavo
Vasquez, do Estúdio Rocklab (Macaco Bong, Black Drawing Chalks), que gravou
o cd “Strange” prestes a ser lançado
pelo Boddah, em parceria com a Fósforo
Cultural e com a Fora do Eixo Discos. O encarte é uma espécie de livreto
com ilustrações lindaças do Bicicleta
Sem Freio, coletivo de design goiano que fez as capas de Artista Igual
Pedreiro do Macaco Bong e a colorida Life Is a Big Holiday For Us, do Black
Drawing Chalks, que tem em sua formação os designers integrantes do coletivo.
O pouco que vi do Grupo Porco de Grindcore Interpretativo não convenceu. Bateria
eletrônica, com grinde core cênico. Por outro lado, o Versus AD devolveu o ânimo com som instrumental de ampla qualidade.
Nas guitarras, o célebre Luís Maldonalle,
que também fez parte da banda de Damo
Suzuki no Bananada, e também atua no Estúdio
Rocklab.
Durante o show do Fígado Killer, me mantive novamente no mesmo palco para passar o
som do Projeto Manada, por saber que
viria outra patada. Dito e feito, rap de base pesada, uma manada passando, e
com conceito bacana. É o Bananada se abrindo pra outras vertentes, como ficou
claro na fala do grupo no palco que disse que não eram uma banda de rap num festival de rock, mas sim “uma banda de
música num festival de música”.
Projeto Manada
Perdi o também o show do Spiritual Carnage pela responsa de
equalizar mais uma banda de som diferente para a Rádio Abrafin, o Mamello Sound System, que tem base, DJ,
e dois vocais, um masculino e um feminino. O diferencial é a abordagem da
banda, que fala de situações cotidianas,
fugindo do convencional “diário da periferia”. Excelente show, como era de
se esperar.
Mamello Sound System
Vi pouco do The Brown Vampire Catz. Se não estou equivocado, a proposta é
Rockabilly, mas senti falta do baixão de pau. Venus Volt se apresentou sem a vocalista, hospitalizada
recentemente. Não abaixando a cabeça, a galera mandou ver e conquistou público
em Goiânia.
O River
Raid foi sem dúvida um dos melhores shows da noite e do festival,
incendiando o público, que só não encheu o teatro porque o domingo não dava
contingente. A participação de Djalma
(Amp) na terceira guitarra abrilhantava ainda mais a orquestra distorcida.
River
Raid
Encerrando o festival, vieram Bang Bang Babies (rock goiano californiano,
beibé) e o Mugo, que veio na veia do metal, com gutural e melodias. Som pesado
e bonito. O som tem semelhança com o brilhante Meshuggah, no sentido da
absorção do conteúdo, sem soar sugado. Diria que a banda está apta a circular
os festivais. E estão loucos pra isso. Vale lembrar que eles foram vencedores
de uma das edições do Tacabocanocd, festival promovido pela Fósforo Cultural
que premia a banda vencedora com o lançamento de um cd.
O encerramento (já de madrugada, mas ainda
cedo para os padrões de um festival brasileiro) fez com que o público voltasse
correndo pra casa pra trabalhar no dia seguinte, mas certamente já instigado
para novos eventos a serem realizados ali. E pensar que o Martim Cererê ficou
abandonado há um tempo atrás...